1/20/2014

das casas, # 9 - a nossa casa.

Montar uma casa com o básico e essencial:
O nosso gira-discos, os livros, os recados dos nossos amigos, o tapete onde ela começou a andar, os nossos sonhos.

Aproveitar o que já cá estava:

Uma salamandra para os dias frios
Uma varanda para as noites quentes
Uma cadeira de casa de bonecas
Uma casa que se encaixou em nós.

Estamos bem. Estamos mesmo muito bem.
Vivemos sem medo e corremos atrás do que nos faz sentido.
A altura é esta.
E é tão bom chegar à noite e antes de adormecer pensar que não precisamos de mais para sermos felizes.























1/11/2014

Das casas, #7 - Rosaclara, a religiosa

Eram 11.30 quando passei por esta porta. Lá dentro, alguém espreitava através da transparência da cortina. Rosaclara é o seu nome. Triste por vocação e religiosa por necessidade, fez desta casa um verdadeiro altar. Por detrás das paredes enfeitadas há uma pequena igreja que erigiu sozinha. Espalhou uma enorme comunidade de santos por todos os lados. Santos em figuras, em calendários,  em velas, em posters, em ímans na porta do frigrífico. E santos nos lençóis, desenhados nas paredes, bordados nos guardanapos onde limpa a boca ao jantar. Os cânticos são permanentemente entoados por entre os dentes - enquanto cozinha, lava a louça, penteia os longos cabelos ou recebe (a custo) o marido, que é ateu. Rosaclara vive com medo. Diz-lhe o marido que não há céu e que os santos são um negócio da China. E ela tem muito medo de morrer e de descobrir que, afinal, toda uma vida de devoção só beneficiou a loja da rua em frente.




9/28/2013

das casas, #6 - A Ramona do Raval.

Mora nesta casa desde que nasceu. No feio bairro do Raval, em Barcelona.
E chama-se Ramona. E nunca saiu dali.
'Putas, turistas emigrantes. É isto todos dias.'
Resmunga do alto da sua janela.
'De dia não me deixam descansar. De noite não me deixam dormir.'
'Putas, turistas, emigrantes. De Janeiro até Dezembro. Vão e vêm, vivem, são. E eu para aqui fechada.
Putas, turistas, emigrantes. Se o tempo voltasse atrás, se eu tivesse menos idade...  ainda era um desses três.'



(todas as personagens deste canto são fictícias)

6/05/2013

das casas, #5

Para mim, onde há águas furtadas, há artistas de pouca sorte. Há uns cobertores no chão a fazer de cama, prateleiras aos milhares cheias de pincéis, tintas, bisnagas. Há telas inacabadas, espátulas, cavaletes. Há um homem franzino de olhos vagos que passa os dias abraçado à sua arte, a viver o seu sonho tão íntimo e tão real que não precisa da aprovação de ninguém.
Ele não precisa das pessoas. E os dias vão passando. Semanas, meses, anos. Cá em baixo a vida passa, o sol brilha, as mulheres riem. Há vestidos curtos, cabelos ao vento, lábios grossos. Mas ele... ele só dá conta que existe mais gente no mundo ao fim do mês, quando a senhoria lhe bate à porta.




5/28/2013

das casas, #4

Cheguei a casa tarde e tinha um embrulho na porta.
Muffins de canela acabadinhos de fazer num embrulho sem remetente.
Uma surpresa inesperada que me deixou a sorrir o resto do dia.
Pelo aroma que pairava no ar, cheira-me que têm a mão da minha vizinha.
A minha vizinha é muito especial. Artesã sem igual, mãe modelo, mãe amor, e é a melhor vizinha que eu poderia pedir. Gestos assim tão puros, tão bons, são um sinal de que afinal a humanidade não está tão mal como dizem. E eu.. eu sou mais feliz ainda por ser vizinha de um ser tão humano.
Afinal é disto que a vida é feita. A minha vizinha diz que há o amor, e que depois 'o resto é nada'. E eu concordo com ela. Obrigada Virgínia.










5/27/2013

Das casas, #3

Voltar a casa é bom. Reencontrar as rotinas, as pessoas, os cheiros.
Fazer-se o que se quer, ao nosso ritmo, ao nosso compasso.
Acordar e inundar a casa com cheiro a café e a roupa acabada de lavar.
As casas, para mim, são especialmente bonitas quando se regressa.



 

5/11/2013

das casas, #2

Aqui? Aqui imagino que morava um casal há mais de 60 anos, apaixonados desde a adolescência.
Quando ela morreu ele foi morar para o Norte com o filho e a casa ficou abandonada.
E foi então que no jardim começaram a nascer as mais belas flores, sem que ninguém saiba quem delas tão bem trata.








4/19/2013

Das casas

Mania esta de passar pelas casas e comer-lhes as janelas e as portas com os olhos. Querer saber quem lá vive e como vive. O que faz, o que está a fazer, o que pensa, o que come, come à mesa ou no sofá? Mania esta de não passar só, passar antes comigo e com os meus mil e um pontos de interrogação que constroem as histórias de pessoas que nunca vi.

Nesta casa, por exemplo, imagino que deve morar uma mulher de 77 anos que criou a filha de uma vizinha que emigrou e nunca mais voltou. Passou a vida de tal modo dedicada aquela criança (qual missão) que nunca chegou a arranjar tempo para formar a sua própria família.
Hoje em dia a criança é uma mulher que casou e foi viver para longe (a ingrata).
Esta senhora passa os dias em trabalhos de costura para umas freguesas que lhe arranjam bainhas por fazer e sacos de pão duro para o jantar.
Tem gatos. Chama-se Dulce.
E sonha com o dia em que poderá conhecer os netos emprestados.