3/08/2013

Este dia da mulher...

Para quem não sabe a criação do dia da mulher serviu a muitas campanhas de propaganda política, após nos ter sido gentilmente cedido o direito ao voto, pelos homens.

Eu não gosto do dia da mulher por me soar a palmadinhas nas costas.

'Epá és mulher... must be hard... toma lá uma flor à saída do metro e até para o ano'.

Eu não quero flores por ser mulher.
Nem quero celebrar a minha condição como se vivesse num mundo de igualdade plena entre géneros. Não enquanto houver uma única mulher mutilada, vendida, trocada, queimada, escondida atrás de véus de ignorância e de estupidez.

E também não quero a igualdade. Quero ser igual nas nossas diferenças. Sou diferente dos homens, e gosto. No geral o meu corpo é mais franzino, mais leve e delicado. Há dias no mês em que sou mais emocional do que eles, e outros em que não.
E há alturas na vida em que o meu corpo faz o que jamais corpo masculino algum fará. Gerar, parir, amamentar. São diferenças de celebrar e não de separar.

Eu não quero amostras de cremes.
Não quero ter de ser magra, bonita, maquilhada, depilada. Pelo menos quero poder escolher.
Quero que os meus cabelos brancos tenham tanto charme como os deles.
Quero poder gostar de carros e de futebol. E quero que eles gostem de teatro e de dança. Sem que nada mais seja posto em causa.
E, repito, não quero amostras de cremes.

E quero que as crianças cresçam sem modelagens escondidas.
Quero que a minha filha tenha brinquedos destinados a crianças em vez de brinquedos para rapazes ou raparigas, e que brinquedos intelectualmente estimulantes não sejam exclusivamente brinquedos de rapazes.
Quero que tenha ao seu dispor legos que não sejam cor-de-rosa, quebra-cabeças, jogos científicos, maquetes de montar e desmontar. E que ainda assim possa escolher brincar com bonecos e mudar fraldas e ter aspiradores de plástico, se bem o desejar. Mas que escolha na homogeneidade da oferta. Que possa ser o astronauta em vez da princesa à espera de ser salva.

E não me dêem miniaturas de perfumes.
Nem esperem que mude o meu nome se e quando me casar. Os homens não mudam porquê? Porque ainda há resquícios da mulher passar a ser uma coisa sua, e levar o nome dele como um selo ou símbolo de pertença. Isso eu não quero, mas obrigada.

E as diferenças salariais, de lugares de poder, de mulheres na política e na gestão.
E mais gritantes são as leis da paridade, que amplificam as diferenças e a discriminação ao ponto de ser necessária a criação de legislação para colocar as mulheres em postos de decisão.
Ainda há tanto a fazer... A resolver. A desmistificar. Há muito caminho a percorrer antes de se celebrar seja o que for. Bem sei que caminhamos para lá mas, até que cheguemos..

Não me dêem miniaturas de perfumes...
Guardem as amostras de cremes,
Nem me venham com flores à saída do metro.





2 comentários:

  1. Bravo! Conheço este texto desde que foi escrito e continuo a lembrar-me dele todos os dias da mulher! E várias vezes ao ano, a bem dizer. Muito apreciado este seu pensamento!

    Sara Lemos

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  2. Muito obrigada Sara, um beijinho.

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