Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim
"Uma recriação dos antigos sacos dos correios usados pelos carteiros
portugueses. Era o tempo em que se esperava pela chegada das cartas,
escritas à mão, com notícias dos que estavam longe."
Esta mala é de um marca portuguesa chamada Sul.
Não fosse o dar quase um salário mínimo por uma mala contra tudo aquilo em que eu acredito e esta já cá cantava. É só das malas mais lindas de sempre.
A escola da minha filha todos os anos elege um tema para ir
trabalhando ao longo do ano com os alunos. Logo neste seu primeiro ano
nesta escola, o tema escolhido foi o principezinho. Achei lindo, quase
como um sinal de que este é o lugar certo para ela (quem me conhece sabe
que eu tenho uma ligação especial com esta obra). Então ontem os
meninos do 4º ano fizeram este poster gigante e colocaram à entrada da
escola. É o principezinho no seu planeta rodeado de estrelas. Enquanto
olhavamos para o poster, estive a explicar-lhe a história. Falei-lhe da
rosa e do vulcão, dos planetas que ele visitou, que conheceu um rei que
só se governava a ele mesmo, um bêbado que bebia para esquecer que
bebia, um acendedor de candeeiros, um contador de estrelas , uma
serpente num jardim cheio de rosas, uma raposa que ele cativou. Se ela
vinha às quatro horas, às três já ela começava a ser feliz. Estava eu com a alma cheia de poesia e então ela começa a analisar tudo. Contou as estrelas, viu a roupa dele, apreciou-lhe o cabelo e depois perguntou:
Oh mãe, e porque é que ele está a andar em cima do cocó? enfim...
Você que só ganha pra juntar o que é que há, diz pra mim o que é que há você vai ver um dia em que fria você vai entrar Por cima uma laje, embaixo a escuridão, é fogo, irmão, é fogo, irmão
(Pois é, amigo como se dizia antigamente o buraco é mais embaixo e você, com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais completa e total solidão pensando à beça que não levou nada, nadinha, nadinha do que você juntou só o seu terno de cerimônia!)
Você que não pára pra pensar que o tempo é curto e não pára de passar você vai ver um di a que remorso, como é bom parar Ver o sol se pôr ou ver o sol raiar e desligar, e desligar,
(Mas você, que esperança...
Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!),
protocolos, comenda, caviar, champanhe (e tome gravata!),
o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!)
e lá, um belo dia, o enfarte, ou, pior ainda, o psiquiatra!)
Você que só faz usufruir e tem mulher pra usar ou pra exibir você vai ver um dia em que toca você foi bulir A mulher foi feita pro amor e pro perdão cai nessa, não, cai nessa, não
Pois é, amigo você que está aí com a boneca do lado crente que é o amo e senhor do material pode estar redondamente enganado no mais das vezes ela anda distante, num mundo lírico e confuso, cheio de aventura e magia e você nem sequer toca sua alma
"É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas..."
Você que não gosta de gostar pra não sofrer, não sorrir e não chorar você vai ver um dia em que fria você vai entrar Por cima uma laje, embaixo a escuridão, é fogo, irmão, é fogo, irmão Por cima uma laje, embaixo a escuridão, é fogo, irmão, é fogo, irmão
Já não sei bem o que estávamos a fazer, mas reparámos que começou um programa de culinária na tv. A Bel ficou a assistir, muito concentrada. Depois disse:
-Quando for munto gande quero fazer comida assim.
-Queres ser cozinheira?
-Sim. Cozinheira.
-Está bem, então quando cresceres a mãe inscreve-te numa escola muito boa onde te ensinam a fazer comidinhas destas.
-E ópois vais-me buscar às quatro e meia?
Foi a festa do desenho, organizada pelo museu Picasso. Imensas actividades, desde desenhar sombras a fazer carimbos. Uma das nossas favoritas foi pintar uma tábua de skate. Ok, não está uma obra de arte, mas fala da nossa Lisboa e foi feita a três mãos. E olha para nós a sermos pendurados na wall of fame =)
Ensinei-lhe que as plantas são seres vivos, como nós. Temos um mini (bota mini nisso) jardim na varanda, que regamos de quando em vez. Ela gosta de flores, de árvores, e de plantas em geral. Passa pelas rosas na rua e cumprimenta-as. Olá flores! Posso dar festinhas? É como se fossem gatinhos. Pois que hoje, ao ir buscá-la à escola, o professor me chama à parte e diz que se teve de "enfadar mucho con la Isabel". Porquê? Porque no intervalo resolveu arrancar as folhas a uma árvore baixinha que há no pátio, depois de lhe terem dito 10000 vezes que não podia porque sem as folhas as árvores ficavam com frio e morriam. Assim que viravam as costas ela voltava e toca de tirar mais folhas. Pues que raro! Voy a hablar con ella - e assim fiz.
Baixei-me à sua altura, dei-lhe as mãos e perguntei "porquê?". Porque não ouviste o Joan? Porque arrancaste as folhas da árvore, coitadinha, que ficou sem agasalho? Logo tu que gostas tanto de plantas?!
Putê quia dar as folhas à mãe.
Caraças. Se isto não é o melhor do mundo então não sei.
BASTA PUM BASTA!
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE
NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES
E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANÔA UNI SECO!
O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!
O DANTAS SABERÁ GRAMMÁTICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS
P'RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLLE FAZ!
O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!
O DANTAS É UM HABILIDOSO!
O DANTAS VESTE-SE MAL!
O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!
O DANTAS ESPECÚLA E INÓCULA OS CONCUBINOS!
O DANTAS É DANTAS!
O DANTAS É JÚLIO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER COMO A SORÔR IGNEZ OU A IGNEZ
DE CASTRO, OU A LEONOR TELLES, OU O MESTRE D'AVIZ, OU A DONA CONSTANÇA, OU A NAU
CATHRINETA, OU A MARIA RAPAZ!
E O DANTAS TEVE CLÁQUE! E O DANTAS TEVE PALMAS! E O DANTAS AGRADECEU!
O DANTAS É UM CIGANÃO!
NÃO É PRECISO IR P'RÓ ROCIO P'RA SE SER UM PANTOMINEIRO, BASTA SER-SE PANTOMINEIRO!
NÃO É PRECISO DISFARÇAR-SE P'RA SE SER SALTEADOR, BASTA ESCREVER COMO DANTAS! BASTA
NÃO TER ESCRÚPULOS NEM MORAES, NEM ARTÍSTICOS, NEM HUMANOS! BASTA ANDAR CO'AS MODAS,
CO'AS POLÍTICAS E CO'AS OPINIÕES! BASTA USAR O TAL SORRISINHO, BASTA SER MUITO DELICADO
E USAR CÔCO E OLHOS MEIGOS! BASTA SER JUDAS! BASTA SER DANTAS!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS NASCEU PARA PROVAR QUE, NEM TODOS OS QUE ESCREVEM SABEM ESCREVER!
O DANTAS É UM AUTOMATO QUE DEITA PR'A FÓRA O QUE A GENTE JÁ SABE QUE VAE SAHIR...
MAS É PRECISO DEITAR DINHEIRO!
O DANTAS É UM SONETO D'ELLE-PRÓPRIO!
O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECCA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!
O DANTAS NÚ É HORROROSO!
O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS É O ESCARNEO DA CONSCIÊNCIA!
SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL!
O DANTAS É A VERGONHA DA INTELLECTUALIDADE PORTUGUEZA! O DANTAS É A META DA
DECADÊNCIA MENTAL!
E AINDA HÁ QUEM NÃO CÓRE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO!
E QUEM LHE LAVE A ROUPA!
E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM DUVIDE DE QUE O DANTAS NÃO VALE NADA, E QUE NÃO SABE NADA, E QUE NEM
É INTELLIGENTE NEM DECENTE, NEM ZERO!
(...)
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS
ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO
DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS
DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA
CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE
PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
Síndrome de Estocolmo (Stockholmssyndromet em sueco) é o
nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa,
submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e
até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor (from wikipedia)
Eu sempre pensei que tínhamos uma televisão mega sensacionalista... até chegar a Espanha. O que já vi por aqui em termos de programação é de bradar aos céus. Esqueçam lá a casa dos segredos. Aqui há casas onde as pessoas vão só para acasalar. Literalmente. Há o big brother, há o Hay una cosa que te quiero dicir (onde pessoas vão expor a vida umas das outras, às vezes com boas intenções outras vezes não) e, recentemente, descobri o ultimate-everybody-is-so-fucked-up tv show. Chama-se Adán y Eva. Adão e Eva, pois claro. Do que trata? Duas pessoas que não se conhecem vão para uma ilha deserta. Como vieram ao mundo. É maminhas a saltar entre mergulhos nas ondas, jantares na areia da praia com tim-tins a espreitar, olhares marotos e danças melosas. Uma divina comédia. As pessoas começam a sentir coisas umas pelas outras (tanto iodo não ajuda ninguém) e, quando o fósforo da paixão acende, eis senão que a produção do programa introduz um terceiro elemento, invariavelmente outra mulher, normalmente mais atraente que a primeira, que se entrenha pelo casal a dentro também só com a roupa que deus lhe deu. Então, a partir daqui todo o programa se resume a 4 maminhas e uma pilinha e duas fémeas assanhadas que lutam pelo macho alfa da manada (isto nas palavras do narrador do programa, nota bene!).
No final, macho alfa escolhe a mais feia mas que conheceu primeiro, então a apresentadora de bikini apregoa os ensinamentos que o programa deu ao rei da batatada e todos ficam com a sensação que este (un)reality show é das coisas mais pedagógicas que o mundo já viu. O que interessa é o que está por dentro. Neste caso o que lhes falta. Acaba o programa, há um debate com os convidados e outras pessoas ilustres, como psicólogos e artistas, que discutem o processo, a atracção, e a escolha do macho. Eu acho que tive 10 mini-avc's enquanto via. O Alberto só se ria.
É o café que fica em frente da biblioteca onde passo 7 horas por dia em frente a um ecrã, a gerar conhecimento, como quem gera um filho (levou-me menos tempo e trabalho a gerar a Bel)... Comparações à parte, este café vai ficar para sempre na minha memória. É dos cafés mais feios de Barcelona, um cubículo cheio de posters de bandas nas paredes, Pink Floyd, The Cure e outros que tais. Tem duas mesas de madeira, um balcão cheio de bancos, uma slot machine a cair de podre. É gerido por um quartentão solteiro tatuado e rockabilly que imagino que terá vivido em Manchester noutros tempos. Gere o café com a mãe, uma senhora grande de saias que já não há até aos tornozelos, crocs nos pés com meias, mas sempre de baton vermelho e cabelo arranjado, ruivo fogo. Os clientes é malta do bairro, tratam-se pelos nomes, discutem filmes piratas e partilham cigarros. Por trás do balcão há mais posters, uma máquina de café, pão, azeite e tomate (para barrar no pão à moda catalã), uma chapa onde ele faz as salsichas e os hamburgueres para os bocadillos da hora de almoço. Também há uma botija de campismo onde senhora mãe faz as melhores tortilhas do mundo numa frigideira preta de ferro que deve ser mais antiga que o próprio café. Vou lá todas as manhãs.
Birras para dormir. Piolhos. Legos e cubos pelo chão. O tupperware de couscous espalhado pela cozinha. Sim, couscous entre os dedos dos pés. Banhos tumultuosos. Chão alagado. Feitio nem sempre fácil. Quer ballet. Não quer ballet. Quer pintar. Pinta a mesa. Cansaço. Dias compridos. Uma tese na recta final. Olheiras. Vista cansada. Deito-me no sofá. Às vezes pergunto-me como se gere tanta coisa diferente. Às vezes apetece ser só mãe. Às vezes dava jeito ter avós por perto. Às vezes nem apetece nada, só silêncio, um dia que seja sem ter nada para fazer. Mas esse dia não chegará tão cedo. E então ela aparece. Dá-me a mão e puxa-me para dancar com ela. Começa a trautear "oh mama ó que linda mama, ó mama da oliveira". E é impossível não rir. Impossível não me render. Impossível não achar que no meio de tanto é isto que vale a pena.
Há pessoas que são verdadeiras fontes de inspiração. Parece que já nasceram cheias de sabedoria, com uma missão marcada, com um auto-conhecimento incrível e com um dom de ajudar o outro para lá do normal. Eu tenho uma prima assim, chama-se Inês e se não fosse ela não tinhamos o blog outra vez. No verão, à porta de uma igreja, deu-me um murro no braço e disse: isto é por teres fechado o blog, tenho saudades dele. E foi nesse momento que eu percebi que também tinha.
Muitos parabéns prima.
Festa de anos. Uma diferença abismal. Foi o primeiro aniversário com consciência de que fazia anos. Era o centro das atenções, a menina crescida, dizia a toda a gente que "é o meu anixário" e atendia o telefone a exclamar "Parabéns!" como se o mundo inteiro estivesse em festa (e para mim estava mesmo). Vestiu-se de princesa pela primeira vez, eu fiz um bolo de anos pela primeira vez, demos um jantar familiar em Barcelona pela primeira vez, ela cantou os parabéns a si mesma trezentas e sete vezes pela primeira vez. Foi um dia feliz. Um dia muito feliz. Agora está em negação, diz que não é assim tão crescida e que ainda quer ser "um bocadinho bebé". Que ainda tem dois anos quando é para ir dormir sozinha e ainda menos quando lhe digo que já não precisa de colo. A idade é contingencial, depende das circunstâncias, e eu já devia saber isso. A festa foi boa, mas a vida é outra coisa. É bom soprar três velas mas são só simbólicas, mãe. A idade de cada um sente-se por dentro e ela sente-se com muitas idades. Depende das intenções. Por hoje tem três anos, é incontornável, mas não há pressa para que seja uma menina crescida. Eu, secretamente, espero que ainda esteja longe (mas mesmo muito longe) o dia em que lhe der o último colo, e ainda mais o dia em que ela deixe de o pedir... Ela tem três anos mas é só, e ainda, e sempre, e afinal, e tão somente o meu bebé. Nós não temos pressa. Temos tempo.
Valsa para uma menininha
Vinícius de Moraes
Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão
Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Teu bicho-papão
Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei
Já dizes tudo. Respondes à letra, fazes piadas, inventas canções. Danças ballet e nadas no banho. Tens uma família de bonecos que tratas como se fossem teus filhos. Continuas a querer colo e a mãe para dormir. Bróculos a quase todas as refeições (e ovos kinder, se pudesses). Fazes amigos com a maior facilidade e adoras dar pancadas nas costas dos estranhos que passam por nós. Falas português, castelhano e catalão, as mais das vezes tudo na mesma frase. Ris que te desunhas. Ah, e dizes-me que não roa as unhas. Adoras as princesas e o homem aranha. Para ti nada é incompatível. Tens medo de monstros. Dás as cambalhotas mais cómicas da história da humanidade e dizes pomptel em vez de hipopótamo. Tens veias germâncias, só pode ser. Não quiseste mais ballet porque a professora não sorria. És sensível e intuitiva. À noite pedes abraços e gostas que te faça cócegas com a respiração no ouvido. Levas cem mil brinquedos para o banho. Gostas de cortar cogumelos. Preferes vestidos e cabelo solto. Pedes um irmão que seja menina. Que se chame Lili ou então Sofy ou então um gato branco. Vamos ver o que a vida nos traz. Para ti só quero coisas boas. Uma vida cheia de surpresas. E que mais tarde passes de menina sensível a uma mulher guerreira, independente, livre, divertida, corajosa, curiosa, inteligente e criativa. E que nunca deixes de ter essa capacidade tão precoce de te colocares no lugar do outro. Faz o bem, sempre, mas a ti primeiro. E continua com esses olhos vivos de comer o mundo, que já me diziam tanto antes de saberes sequer falar. Ouve esta mãe que diz mais do que pratica, mas que tenta ser todos os dias um décimo da mulher que gostava que te tornasses. O que escolheres ser não me importa. Com quem escolheres viver não me importa. Só quero que sejas tu. E que sejas livre. E que sejas plena. É isto o que mais te desejo. Não vais ser feliz todos os dias, e vais perceber que isso é ok. Vais conhecer pessoas novas, boas, más, e mais ou menos. Guarda só as boas. Não percas tempo com mediocridades. Sê forte. Confia na vida. Lança os teus desejos ao ar, pede e receberás. E se não receberes, recorda-te que as experiências que tens de viver nem sempre serão as que queres, mas são as que precisas nesta tua jornada. Ás vezes a paz está na aceitação, no fluir. Estamos cá para aprender, para amar muito e para evoluir.
Quero que saias, que voes, que não precises mais de mim. Mas há uma parte minha que te pede que entre as tuas aventuras voltes sempre, com o maior carinho, a uma imagem nossa, guardada no teu coração. Abraçadas, de noite, antes de dormir, eu a fazer-te cócegas com a respiração no ouvido e tu a rir sem parar. E sempre que te recordares, eu prometo que estarei lá. Sempre.
Tu vais fazer três anos. Três anos antes não eram nada e de repente três anos são tudo. E o mais engraçado é que sinto que nunca estive um dia sem ti.
Olá inverno. Olá vento. Olá chuva. Olá frio. Olá poças de água. Olá quedas no passeio. Olá collants encharcadas. Olá roupa que não seca. Olá nariz entupido. Olá febre. Olá cabelos no ar. Olá carros a molhar piões pela manhã. Olá sopas quentinhas. Olá colo mais vezes. Olá botas da chuva. Olá chocolate quente. Olá churros. Olá castanhas. Olá edredon. Olá meias de lã. Olá luvas. Olá folhas secas. Olá lareira. Olá será que é este ano que neva. Olá chá de gengibre. Olá Natal. Olá 3 anos dela. Olá 30 anos meus. E, para ela, mais importante que as 4 estações juntas: Olá chapéu de chuva das princesas.
"Sabes o que eu descobri? Que os joelhos e os olhos de cada pessoa têm o tamanho exacto e perfeito para se encaixarem uns nos outros. Tia, experimenta."